OBJETIVO DO BLOG

Este blog tem por objetivo orientar os pais que possuem filhos entrando ou vivenciando a adolescência. De orientar também os professores que lidam com eles diariamente,para que possam compreender suas dificuldades e ajudá-los ainda mais, pois, esta é uma fase complicada na vida dos jovens e, muitos pais e professores não sabem como agir diante de certas atitudes desses jovens. Pais e professores encontrarão aqui informações de médicos, psicólogos e teóricos sobre a educação dos adolescentes.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

AS CONDIÇÕES DE TRABALHO no séc XIX

A industrialização expandiu-se no século XIX. E esse desenvolvimento se tornou a marca do “mundo civilizado”, chegando a um nível diferenciado em comparação com os séculos anteriores. O desenvolvimento industrial foi uma verdadeira revolução não só no meio produtivo, mas nos comportamentos, os costumes e na maneira de se encarar a vida. E se por um lado a industrialização trouxe muitos benefícios também trouxe consequências, como:

EVASÃO DO CAMPO


Até o final do século XVIII, 85% da população vivia no campo. Lá a vida era dura. Embora plantassem, o dinheiro era pouco, porque como já vimos, o transporte dos produtos era ruim. 

Transportados por carroças puxadas a cavalos, os produtos alimentícios chegavam às cidades em más condições e muito caros, porque mais da metade dos produtos já estavam estragados.

Os produtores estavam sempre endivi-dados porque recebiam muito pouco. Nas cidades, o custo dos alimentos era escasso, caro e de qualidade ruim. 

Havia fome, na cidade e no campo. Por isso, muita gente que vivia no campo migrava para as cidades. E em pouco tempo, as cidades estavam abarrotadas de gente, que procuravam uma ocupação nas indústrias para sobreviver.

JORNADA DE TRABALHO

Nas indústrias, a jornada de trabalho era dura e desumana. Os chefes de famílias trabalhavam de 12 a 18 horas diárias e seus salários eram baixíssimos. Dessa maneira, os trabalhadores não tinham vida fora do trabalho e continuavam não podendo garantir o sustento e a sobrevivência familiar.

Desse modo, os chefes de famílias permitiram que suas mulheres tralhassem nas indústrias para tentarem ter uma condição de vida um pouco melhor. E elas foram. Faziam o mesmo trabalho que os homens, com a mesma jornada, mas recebiam a metade do salário dos maridos.

ACIDENTES

Muitas mulheres casadas não tinham com quem deixar os filhos. Na época e com essa justificativa, era permitido que elas os levassem para o trabalho porque não haviam leis que regulamentasse o tra-balho e protegesse a classe operária.

Criança é criança, indepen-dente da época em que vivem. E como toda criança, não passavam o dia todo quietas. Elas queriam brincar, correr por entre as máquinas e mexer nelas. Embora a vigilância fosse intensa por parte das mães, bastava um momento de distração, que as crianças aprontavam alguma arte. Muitas se machucavam. 

Alguns acidentes eram leves, outros mais perigosos como perder um dedo, a mão, arrancar os cabelos até a raiz. Algumas outras, perdiam a vida. Nestes casos, os proprietários das fábricas não se responsabilizavam por pequenos ou grandes acidentes que as crianças sofriam, e ainda descontavam dos salários, as horas paradas e gastas no socorro das crianças.

TRABALHO INFANTO-JUVENIL


Para prevenir acidentes, as indústrias passaram a contratar as crianças e adolescentes. A justificativa era a de que trabalhando as famílias poderiam ter mais um dinheirinho com qual contar. E era comum ver-se famílias inteira nas fábricas. 

Os adolescentes recebiam metade do salário das mães e as crianças (dos 9 aos 14 anos) recebiam metade do salário dos irmãos adolescentes para o mesmo trabalho e o mesmo tanto de horas trabalhadas. O dinheiro era pouco, mas ajudava.O trabalho era insalubre, sem cuidados de segurança, pesado e duro.

REGRAS X LEIS


Embora não houvessem leis que regu-lassem o trabalho dos adultos e do traba-lho infanto-juvenil, as fábricas tinham regras. 

Era eram regras rígidas e cada fábrica tinha as suas próprias regras. Por exem-plo: tinham hora de entrada no trabalho, mas variava de acordo com cada proprie-tário. No entanto, não tinham uma hora certa para deixar o trabalho. 
Em muitas indústrias, cada operário tinha uma tare-fa a cumprir e podiam deixar o trabalho depois de cumprí-la. Outras, deixavam os operários trabalharem até a exaustão para liberá-los.Essas regras podiam ser modificadas a qualquer momento, visto que nessa época, não haviam leis que regulamentasse o trabalho ou o direito dos trabalhadores.

FISCALIZAÇÃO DO TRABALHO


Quando a indústria era pequena, normalmente o proprietário fiscalizava seus operários.
Quando era uma fábrica maior, em geral, o proprietário indicava um filho, um parente ou na falta deles, um empregado mais antigo para fiscalizar os demais. Essa fiscalização era mais em relação ao comportamento do que apenas sobre o serviço realizado. 

Na questão do comportamento os operários não podiam deixar o serviço para bater papo, brincar com o colega, tomar um café ou água, comer alguma coisa ou ir ao banheiro mais que duas vezes ao dia. Até olhar para o lado por alguns minutos, olhar pela janela, dar uma volta pelo local de trabalho, reivindicar melhorias do trabalho ou de salário, não podia, porque tudo era proibido.

Mulheres gestantes não tinham folga. Só paravam para dar à luz e tinham apenas um dia de recuperação sem desconto. Do contrário, era considerado falta e descontada do salário. Enquanto isso, os proprietários enriqueciam a olhos vistos.

ASSÉDIO SEXUAL e MORAL


                                       
Muitas crianças de 14 anos ou mais, adolescentes jovens, mulheres solteiras ou casadas eram assediadas sexualmente por seus patrões sob a ameaça da perda do seu emprego ou por promessas de melhoria dos salários. Muitas viviam em extrema pobreza e se sujeitavam acreditando nas promessas feitas. Mas depois, compreendiam que isso não aconteceria.

As que se recusavam eram perseguidas pelos patrões, xingadas e depreciadas em seu trabalho diante de todos colegas. Muitas chegavam a serem espancadas pelos patrões por sua recusa. Na maioria das vezes, este comportamento patronal era usado para servir de exemplo para as outras operárias e para que eles pudessem assediá-las com mais facilidade.

Muitas vezes, a situação ficava tão insuportável, que elas desistiam do emprego sem dar satisfação à ninguém. E mesmo que dissessem o que lhes acontecia, sairiam sem receber seus salários por não haver leis que regularizassem as “indenizações” como existe hoje.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

AS MULHERES DO SÉCULO XIX

Até meados do século XIX, as pessoas ainda conservavam os padrões sociais dos séculos anteriores. O objetivo das mulheres continuava sendo o casamento, ter muitos filhos e cuidar da casa e da família. E para isso eram educadas.


As solteironas viviam às custas dos irmãos, mas eram consideradas pessoas “non gratas”. Eram tratadas como um “peso morto”, mas que tinham de suportar. No entanto, as que resolviam se sustentar sozinhas e trabalhar para sobreviverem, eram mal vistas. A estas, restavam duas opções: ser governanta e receber um salário irrisório ou trabalhar nas indústrias e ser a “chacota” de todos, principalmente, de outras mulheres (beneficiadas pelo “casamento”). 


Naquele tempo, mesmo sendo permitido, qualquer trabalho realizado pelas mulheres fora de casa era um “ultraje social”, uma afronta aos costumes e uma quebrava os padrões sociais. O único trabalho feminino reconhecido era o de “dona de casa” e aos homens cabia o trabalho fora de casa.


Se por acaso, uma mulher fosse vista próxima a uma máquina em funcionamento, já era motivo para muitos comentários. Se operasse uma máquina então, logo sentiam os olhares de reprovação, de desdém, ouviam as zombarias e comentários sarcásticos ditos cara a cara ou pelas costas, por outras mulheres. Algumas mulheres, mais inflamadas, incontidas e indignadas com a visão de uma mulher trabalhando, atiravam-lhes ao rosto uma série de insultos, como por exemplo, dizendo-lhes que aquele trabalho era contrário aos “instintos naturais femininos” e que elas eram as culpadas dos homens perderem a admiração pelas mulheres. 

Outro ultraje social era ver uma mulher ganhando um salário (mesmo que irrisório) por trabalhar como enfermeira. Isto porque essa função era exercida pelas esposas gratuitamente. 


Ultrajante também, era saber que as mulheres estavam estudando. Foi um tempo de muita desconfiança, principalmente das mulheres que sabiam ler, escrever e fazer contas. E, por isso, eram alvos de mexericos e ofensas. Essas coisas sempre haviam sido redutos masculinos no consenso geral.

No entanto, muitos pais procuravam ensinar as filhas a ler, escrever e contar ás escondidas. Sabiam que elas precisariam das letras para melhorarem a vida delas e de suas famílias. Esses pais, muitas vezes, não conseguiam diferenciar o “a” do “o”, mas tinham uma visão além de seu tempo e não queriam que suas vivessem ou levassem a vida que sempre levaram.

E o tempo foi passando. As coisas começaram a melhorar para o setor da enfermagem após a segunda metade do século XIX. Nos Estados Unidos, em 1860, FLORENCE NIGHTINGALE trabalhando como enfermeira percebe as contradições que esse trabalho oferecia. Por isso, funda a “Nightingale School of Nursing” (Escola de Enfermagem Nightingale) e regulariza a profissão. 


Foi uma atitude ousada essa de Florence. Mas trouxe uma perspectiva nova para o trabalho feminino. Além desta escola, os Cursos de Enfermagem foram abertos pelo mundo afora. E elas, agora, podiam estudar e exercer a profissão mais abertamente. Mas por que não ir além? Por que não alçar novos voos? Quem sabe talvez... frequentar os cursos de MEDICINA? E para surpresa geral, algumas mulheres se inscreveram no Curso de Medicina. No começo eram poucas, mas muito ousadas. E sofreram muito por tal decisão. 


Os cursos de Medicina (assim como outros cursos) eram essencialmente redutos masculinos. Os professores, vendo uma mulher na turma, davam a elas os piores e os trabalhos mais difíceis com o intuito de provar sua incapacidade, de humilhá-las e fazê-las desistir. 

Durante as aulas, as mulheres não podiam opinar, sugerir ou discordar, sem que ouvissem inúmeros comentários desagradáveis e frases cheias de segundas e terceiras intenções. As menos ofensivas é que “deveriam estar em casa lavando pratos”, “que estudar não era coisa para mulheres”, ou “que as mulheres preferiam e confiavam mais em médicos (homens) do que em médicas”. E muitos outros comentários iguais ou piores que estes, eram ditos por seus colegas e professores.

As resistências eram enormes pela simples presença feminina e que não conseguiam suportar e desistiam. As desistências estimulavam a professores e colegas a serem mais rudes e deseducados com as que ficavam. Poucas chegavam até o final do curso, pela força de vontade, fazendo-se de surdas, aguentando as agressões e os impropérios, marcaram a vida das mulheres do mundo todo com a esperança de novos rumos e mostrando que as mulheres eram capazes de ir mais longe.


Uma dessas poucas mulheres corajosas e audaciosas foi a italiana Maria Montessori, que depois de formada se especializou em deficientes intelectuais (outra ousadia, já que os deficientes intelectuais não tinham a mínima condição de sobreviverem). Montessori fundou uma escola para eles (A CASA DEI BAMBINI) e criou um método especial que, além de ensinar os conteúdos escolares, ensinava também a aquisição de hábitos de higiene pessoal, do ambiente e a autonomia dessas crianças. 

Historiadores contam que, em 1881, no reinado da rainha Vitória, a Grã-Bretanha sediou um Congresso Internacional de Medicina. Vários médicos de renome foram convidados como palestrantes sobre seus estudos e descobertas na área médica. Porém, as inscrições femininas foram proibidas. A justificativa foi, que a rainha e sua corte, não viam com bons olhos o fato de mulheres estudarem Medicina ou exercerem qualquer tipo de profissão.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O LIBERALISMO DO SÉCULO XIX (1800 a 1900)

Apesar das dificuldades que as pessoas do século XIX viviam, o LIBERLISMO foi o grande marco desse século. O liberalismo foi um movimento iniciado por um grupo de pensadores europeus. Baseados na observação de como os burgueses da Revolução Francesa iam em busca dos seus interesses e de como progrediam na vida. Esses pensadores percebiam nessa busca de um objetivo por meio de suas próprias inciativas ou por seus próprios recursos, Com isso, modificavam o ambiente a sua volta e criavam muitas possibilidades na relação dos homens com o mundo. Os pensadores percebiam uma certa “felicidade” nessa busca e nas suas conquistas.


Os pensadores perceberam que esse comportamento dos burgueses era completamente diferente do comportamento das pessoas de épocas anteriores. As pessoas corriam atrás de seus objetivos e interesses pessoais e não estavam mais submissas às vontades das igrejas ou dos monarcas. Descobriram também que a individualidade de cada um, com seus desejos e interesses diferenciados, trazia uma nova maneira de encarar o mundo.

Era uma ação que envolvia uma certa RAZÃO de ser e de se comportar dessa maneira. E quanto mais buscavam, mais queriam conhecer, melhorar e modificar o mundo. E isto fazia a sociedade local se desenvolver, progredir e melhorar junto. Perceberam que, quanto mais liberdade e igualdade havia, mais queriam que o coletivo melhorasse.

Comparando esse comportamento com o das pessoas de épocas anteriores chegaram à conclusão de que, homens e mulheres, deviam ser livres e iguais. E que os governos deveriam permitir essa igualdade e liberdade em benefício da própria sociedade, já que um mundo de oportunidades se descortinava. No entanto, nem todos pensavam dessa maneira, apesar do senso comum quanto aos valores, a liberdade, a razão, a individualidade e a igualdade.


O liberalismo foi uma ótima oportunidade de desenvolvimento dos povos e das atitudes masculinas mais arrojadas. Porém, essa parcela da sociedade tinha uma grande dificuldade de entender a liberdade feminina, apesar de vê-las de modo diferente: como companheiras de jornada e não mais como um ser submisso. Os homens aceitavam que as mulheres podiam escolher casar ou ficarem solteiras, sem que fossem rebaixadas ou condenadas por isso.

A ala mais conservadora da burguesia passou a ficar incomodada com uma porção de coisas que as mulheres podiam fazer uma porção de coisas que não faziam antes, como estudarem e trabalharem fora de casa. E muitas vezes as mulheres eram recriminadas ou mesmo impedidas de fazer o que desejavam. Diante das liberdades femininas os homens mais conservadores perdiam o rumo e ficavam indecisos sobre o seu papel na sociedade e na família.


E eles pensavam: Se antes o homem eram o provedor da família e agora com elas trabalhando fora, o provedor é quem? Elas ou eles? ou, se perguntavam quem era o chefe familiar: elas ou elas? Quanto a autoridade a quem cada um devia obedecer? E como ficaria se os homens tivessem que obedecer às ordens femininas?

Pois é. O liberalismo deu um nó na cabeça dos homens do século XIX. Os homens temiam que as mulheres passassem a dominá-los  e tomassem os seus privilégios. Em outras palavras estava em jogo o papel do homem e o papel das mulheres numa sociedade ainda muito machista. E houve uma grande e demorada discussão a esse respeito.

Finalmente, concluíram que:
1- Às mulheres cabia o papel de esposas e, consequentemente, da maternidade era ponto indiscutível e definitivo.
2- Homens e mulheres poderiam escolher seus parceiros e as relações sexuais passariam a ser importantes entre o casal.
3- Ter filhos se tornou algo muito importante.

Dessa discussão toda resultaram em consequências que não ajudaram muito às mulheres, tais como: as esposas deviam acatar as ordens dos maridos que permaneciam como chefe familiar. O cuidado com o marido e com os filhos e a educação destes ficava a cargo da mulher. Quanto dessas mulheres estudarem e trabalharem fora, dependeria de um acordo entre o casal. As mulheres estéreis passaram a ser repudiadas. O adultério feminino era desabonador por serem consideradas “complemento do homem”.


Na sociedade, apesar dos direitos que lhes eram conferidos, as mulheres que saíam sozinhas para passearem, davam margem à fofocas e comentários desagradáveis. O voto era indiscutivelmente próprio do comportamento masculino, com a desculpa de as mulheres não entendiam de política. Nas Artes, podiam até aprender e fazê-las como passatempo ou para decorar a casa. Viver de sua arte, não podiam.

Como vimos, poucas coisas mudaram no século XIX. As mulheres cerceadas em muitas coisas e a maioria se acomodou nos novos papéis sociais. Mas algumas se rebelaram.

Destacaram-se na pintura: (usando apenas o sobrenome como forma de driblar a sociedade que permanecia sobre o domínio masculino), porque de outra forma não vendiam seus quadros: HARRIET POWER (1837 a 1910), EUA, especializada em retratando os escravos africanos de seu país, em aquarela; BERTHE MORISOT (1941 a 1895) – FRANÇA - pintura a óleo; EVELIN B. LONGNAN (1845 a 1890), EUA – pintura a óleo; MARY CASSAT (1845 a 1926), esposa de Degás – pintura a óleo; TINA BLAU (1847 a 1916) – ÁUSTRIA - pintura a óleo; ELISABETH T. BUTLER (1848 a 1920) -  INGLATERRA - pintura a óleo; OLGA LAGODA SHISHKIN (1850 a 1881) -  RÚSSIA - pintura a óleo; HERMINE von PREUSCHEN (1854 a 1919) – ALEMANHA - pintura a óleo; MARY E. DIGMAN (1857 a 1938) - CANADÁ - pintura a óleo; LOUISE ABLEMA (1858 a * ) - FRANÇA - pintura a óleo e aquarela; CAMILLE CLAUDEL (1863 a 1943) -  FRANÇA - pintura a óleo; LOUISE DE HEM (1866 A 1922) – BÉLGICA - pintura a óleo; dentre outra.

Na fotografia destaque para: JULIA MARGARET CAMERON (1815 a 1879) – EUA. Na escultura, destaque para: HARRIET HOSNER (1830 A 1908) – NORUEGA; BEATRIZ POTTER (1866 a1943) – EUA; ADÉLIA JONHSON (1895 a 1941) – EUA, dentre outras. Na moda, a estilista ROSA BONHEUR (1822 A 1899) – FRANÇA é o destaque. 

terça-feira, 25 de setembro de 2018

O SÉCULO XIX (1800 a 1900)




Enfim, chegamos ao século XIX, onde parecia que as coisas iam se modificar de verdade. Ledo engano. Viver no século XIX não foi nada fácil. E viver nas grandes cidades foi muito pior do que se imaginava.


A população cresceu assustadoramente e de forma muito rápida. Em algumas cidades, a população chegou a dobrar em curto espaço de tempo. Em outras, a população chegou a aumentar 5 ou 6 vezes comparando-se ao século anterior. Daí haver uma explosão habitacional, o que trouxe vários problemas a vários setores para os governos, principalmente, nas capitais.


Carros, ônibus, trens ou outros veículos movidos a motores não existiam ainda. O que havia eram carroças puxadas por cavalos. Milhares de carroças eram necessárias para transportar cargas e pessoas de um lugar para outro, próximos ou mais distantes.

E como os cavalos não “pediam para ir ao banheiro”, logicamente, os cavalos as faziam suas necessidades fisiológicas pelos caminhos e ruas das cidades. Imagine milhares de cavalos fazendo suas necessidades (cerca de 10 quilos por dia) pelas ruas de uma cidade. Eram várias toneladas depositadas todos os dias pelas cidades do mundo inteiro. Sendo assim, nem precisamos calcular a sujeira que ficava acumulada numa semana, num mês ou num ano. Literalmente, as cidades (do mundo todo) estavam afogadas nesse estrume todo. E em virtude disso, havia farta proliferação de moscas, carcaças, sujeiras, urina e... doença

lixo nas ruas de Nova York

Jornais do mundo todo faziam estimativas dessa sujeirada toda. O Times londrino previa que, Londres estaria soterrada em mais de 2 metros e meio de estrume, em 1884. Pelos cálculos dos jornais americanos, Nova York teria, em 1850, um acúmulo de estrume que chegaria até ao 3º andar dos edifícios dessa cidade.

Jogando lixo nos rios

Mas este não era o único problema. Não havia saneamento básico (esgoto). Por isso, tudo o que era recolhido (restos de comida, fezes humanas, restos e cadáveres de animais (vacas, porcos, galinhas) incluindo os cavalos e seus dejetos) eram jogados nos rios ou em algum terreno um pouco mais distante. Pode-se afirmar que as grandes cidades do século XIX eram verdadeiros lixões a céu aberto.



Se viver nessas cidades era desagradável, morrer era ainda pior. Alguns cemitérios foram construídos em 1840, porém, eram tão minúsculos que não comportavam a quantidade de pessoas que morriam por causa das doenças provocadas pela sujeira das ruas. Os enterros eram feitos de modo muito displicente. As covas eram rasas e, muitas vezes, os corpos ficavam expostos aos abutres e corvos. 


Quem podia pagar, compravam urnas funerárias (o famoso caixão). O corpo ficava nele até a cerimônia fúnebre terminar. Depois, os corpos eram retirados das urnas, os ossos eram quebrados (ás vezes, o corpo era esquartejado) pera ocuparem os menos espaço. Os caixões eram desmanchados e vendidos aos mais pobres como lenha.

Ir a um sepultamento era triste e desolador. O cheiro do local era insuportável e muitas pessoas chegavam a desmaiar ou iam embora por não suportarem o odor do local.

Com as cidades imundas, haviam muitas doenças. E as epidemias de Cólera, tifo, tosses convulsivas, sarampo, febres reumáticas, varíola e outras, eram constantes e matavam muitos adultos e crianças de todas as idades. Mas também haviam mortes prematuras, instantâneas e banais.



Outro problema crucial que os governos enfrentavam era a falta de escolas. As que haviam eram em número muito reduzido. Em 1870, mais de 75% da população mundial não frequentava a escola. Na Ásia e na África esse número passava de 90%. Assim, apenas uma pequena elite era alfabetizada.

A escola (Quintanilla deTrês Barrios - Espanha)

Mas a maioria da população sonhava com a liberdade e dias melhores através da educação formal. A geniais mentes que fizeram a revolução industrial, científica e institucional fizeram com que o mundo atingisse um patamar que ninguém jamais havia imaginado. Mas o progresso dependia de uma sociedade mais letrada para se instalar, crescer e vencer.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

OUSADIA FEMININA NO SÉC XVIII

Numa época e numa sociedade em que ainda se via a mulher como dependente de um homem (pai ou marido), permanecer solteira era cair em “desgraça”. Tanto que, aos 30 anos, as mulheres eram consideradas “velhas solteironas”.

Se por opção permanecessem solteiras, ou por infortúnio perdiam os pais, tinham que viver com um irmão, se o tivesse. Nessa circunstância, eram consideradas hóspedes indesejáveis e permanentes.

Se não tivessem irmãos, precisavam sobreviver e se manter dignamente, os problemas começavam a aparecer. Sozinhas, procuravam uma ocupação como governantas na casa de alguma família mais abastada ou importante. Mas eram desprezadas e seus salários, irrisórios. Fora isso, ir para um convento, pois nenhuma outra profissão admitia mulheres.
Algumas foram tão ousadas que inspiraram e continuaram inspirando outras mulheres pelo mundo afora. Uma delas foi TEREZA MARGARIDA DA SILVA E ORTA CONCEIÇÃO FLORES, que viveu de 1711 a 1793, nascida na Província de São Paulo de Piratininga, no Brasil Colonial. Era filha de José Ramos da Silva e de Catarina Orta. O pai (Cavaleiro da Ordem de Cristo e de Provedor da Casa da Moeda de Lisboa) e a esposa vieram para o Brasil com a comitiva de S. João VI. E Tereza Margarida nasce em São Paulo, três anos depois da chegada dos pais ao Brasil.

José e Catarina tiveram três filhos. Tereza, Mathias Ayres e uma irmã (cujo nome não é citado). Tereza e a irmã estudaram no Convento das Trinas e queriam ingressar na vida religiosa. Treze anos depois, a Família Real decide voltar para Lisboa e a família de Teresa vai também. 

Em Lisboa, já mocinha, casa-se com Pedro Jansen Moller van Praet e com ele tem 12 filhos. Por falar fluentemente o francês e o italiano, além do português, foi dama da corte de D. João V e de D. José. Aos 42 anos, após a morte do marido, Teresa Margarida é acusada de insubordinação pelo Marques de Pombal, que manda prendê-la por 7 anos, no Mosteiro de Ferreira de Avis.

Durante o tempo que ficou presa, Teresa escreveu poemas, onde colocava toda a sua amargura pela perda de sua liberdade. Mais tarde, escreveu a “Novena do Patriarca São Bento” e “Cartas dedicadas à Abadessa D. Anna Josefa de Castel-Branco”, onde pede à Virgem Maria que a livre da prisão.

Depois de cumprir a pena, Teresa vai morar na casa do Monsenhor e Inquisidor Joaquim Jansen Moller, seu cunhado. Lá escreve seus primeiros livros publicados: “Máximas da Virtude e Formosura de Diófanes” (1752), “Aventuras de Diófanes I” (1777) e“Aventuras de Diófanes II” (1790) ambos como uma releitura da obra de Alexandre de Gusmão. Por fim, “História de Diáfones, Cryminea e Hemirena – príncipes de Tebas” publicado (1818), ou seja, depois de sua morte em 1793. Mas nunca pode ver seu nome verdadeiro em seus livros. Ela usava o pseudônimo: Dorotéia Engrassia Tavareda Dalmira.


O livro “Obras Póstumas”, conta com seus poemas, cartas e apelos à Nossa Senhora, “Novena de São Bento, textos de Rodrigo de Sá e de Barbosa Machado (seus principais críticos) e de Ernesto Ennes, Tristão de Athayde e Rui Bloem (seus escritores preferidos e de quem era amiga). O interessante é que essa obra publicada em 1993, com o verdadeiro nome aparece como autora, exatamente quando se completou 200 anos de sua morte. Com essa obra, foi aclamada “a primeira romancista de Língua Portuguesa” da história da humanidade. 


Outra mulher ousada foi AMANDINE AURORE LUCILE DUPIN, baronesa de Dudavant, que viveu de 1804 a 1876, foi considerada a maior romancista e memorialista francesa. Porém, para que pudesse vender seus livros teve que usar um pseudônimo masculino: George Sand.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

UM MUNDO DE CERTIFICAÇÕES LEGAIS



Embora as Igrejas apregoassem a igualdade entre homens e mulheres no início da nova era, na realidade as coisas continuavam com estavam. Os códigos civis privilegiavam mais os homens do que as mulheres, as sociedades viviam o patriarcado (e viveriam assim por mais alguns séculos) e se nos códigos civis houvesse alguma cláusula que ajudasse as mulheres, normalmente, eram esquecidas. 

RESPONSABIIDADES NO CASAMENTO – estava baseada no princípio de consenso, cabendo ao homem o provimento financeiro da família. Para a mulher: cuidar da casa, do marido e dos filhos, ajudar o marido em tudo o que fosse possível além das obrigações conjugais. Ao dar o “sim” diante do altar, as mulheres assumiam a responsabilidade do que adviesse do casamento. Embora não houvesse lei que regulamentasse a questão dos maus tratos, as mulheres continuavam sendo as vítimas deles. 

A Igreja Protestante foi contra a questão do consenso e pediu explicações claros sobre o significado desse termo. A resposta foi “consenso seria o prazer de marido e mulher estarem juntos”. Daí incluírem nos casamentos a célebre frase que os noivos esperam para jurar que ficarão juntos “...nas alegrias e nas tristezas”... Em outras palavras, significa que nós, mulheres, teríamos que aguentar as dores que aparecessem no casamento, porque também tínhamos prazeres com ele. 

2- COOPERAÇÃO MÚTUA – As famílias se comprometiam a ser cooperadoras no custeio do casamento, da festa, na conservação e ampliação dos bens e na ajuda financeira dos rituais religiosos. 

3- UMA QUESTÃO DE IDADE – as mulheres podiam “escolher” seus maridos. Porém, entre os que fossem apresentados pelos pais e de acordo com seus negócios. Caso a moça casadoura fosse menor de idade (menos que 17 ou 18 anos) devia obediência ao pais e aceitar o marido que ele escolhesse. A justificativa para isso era a da salvaguarda dos bens e dos interesses familiares. 

Com o passar do tempo, as Igrejas foram se tornando cada vez mais burocráticas e misóginas. E para tudo precisava de certificados, atestados e testemunhas. E para que o casamento acontecesse era preciso agir de acordo com as ordens do clero. 

Lembram-se do “tempo de espera” entre o baile e a assinatura do contrato nupcial? Então, assim que a moça encontrasse um pretendente, a família da noiva devia informar a Igreja do futuro casamento. E, esse “tempo” era usado para que o rapaz e a moça preparassem uma série de certificações (documentos) necessárias. 

Se o noivo e noiva fossem nascidos e criados numa única freguesia (ou paróquia), não haviam tantos problemas porque os certificados de batismo eram providenciados pela própria Igreja. Restavam apenas os de filiação, providenciados pelas duas famílias. Porém, se.... 

1- MOÇA DE UM LUGAR E O RAPAZ DE OUTRO - Suponha que o rapaz Se fosse o rapaz a casar na “cidade dela” (digamos assim, para melhor entendimento), bastava pagar o custo de um ritual de casamento em sua cidade. Depois, ele passava pela inquisição e pronto. 

Mas se ele quisesse realizar o casamento religioso na “cidade dele”, a moça deveria apresentar para o clero da “cidade dela e também enviar para a cidade dele” os seguintes documentos: 

· certificado de idade, naturalidade e de filiação (fornecidos pela família); 

· certificado de batismo (feito pelo pároco do local de seu batismo) e, se algum deles não fosse batizado (protestante ou de outra seita qualquer), tinha que ser convertido e batizado antes de casar; 

· o noivo e a noiva deviam passar por uma Inquisição (uma espécie de catecismo) para corrigirem ou adquirirem os princípios da Igreja católica; 

· atestado da freguesia (região) onde moravam e frequentavam (fornecido de próprio punho pelos pais ou pelo padre do local). 

· depois de entregues os documentos, as duas dioceses iriam analisar os documentos (e sempre achavam um errinho aqui e outro ali) e os noivos tinham que refazer tudo novamente. 

Se estivesse tudo certo, as duas dioceses iriam se encontrar e decidir a validade ou não do casamento ser em uma cidade ou na outra. Nessa discussão, o preço da cerimônia entrava em questão, pois cada uma por sua vez, queria o dinheiro para si. Depois de muito debaterem, chegavam a conclusão de que podiam dividir o dinheiro. Então o casamento era realizado. 


2- CASAMENTO DE 2ªs NÚPCIAS - 

SE A MILHER TIVESSE MORRIDO - bastava o marido levar duas testemunhas que conhecessem a mulher morta e que tinham estado e visto seu enterro e pronto. 

Porém, se o morto fosse o marido, as coisas pioravam pelas dificuldades que elas enfrentavam. Vejamos: 

1- SE A MORTE FOSSE NO LOCAL ONDE VIVIAM - a) não bastava mostrar o túmulo, precisavam apresentar testemunhas que o conhecessem e que estiveram no momento do enterro para comprovar a veracidade; b) a Igreja fazia penosas e longas investigações nas sepulturas, para ter a certeza da morte do marido; c) conseguir a certidão do casamento (muitas vezes, difícil, por ter que viajar para o local (cidade ou pais) onde se casaram); e todos os outros documentos descritos anteriormente. 

2- SE O MARIDO MORRESSE FORA DA REGIÃO ONDE VIVIAM – Se ele fosse um mercador, soldado, marinheiro era muito difícil conseguir testemunhas de sua morte. Como provar sua morte então? Levava muitos anos e até que ele fosse dado como morto pelas autoridades eclesiásticas, só então o casamento poderia ser realizado. Além dessa declaração, todos os demais documentos teriam que ser entregues. 

3- SE O CASAMENTO FOSSE REALIZADO ÀS ESCONDIDAS – Se o casamento fosse realizado em alguma seita ou em capelas (da Companhia de Jesus, por exemplo) não tinham direito a receber uma certidão. Nesse caso, os casamentos eram considerados nulos.

4- SE O CASAMENTO ENVOLVESSE PARENTES e se esses parentes fossem até a 7ª geração, o casamento era considerado nulo pelas duas Igrejas. Porém, se o parentesco fosse de 8ª ou mais gerações, era considerado válido.

5- CASAMENTOS SEM BANHO -  O batismo era chamado de “banho”. Dessa forma, se o noivo ou a noiva não tivessem sido batizados, precisavam batizar-se primeiro, para depois se casarem. Caso contrário, o casamento seria considerado sem valor. Ou, se um dos noivos estivesse hospitalizado com uma doença grave e que o levasse ao óbito, se estivesse preso por qualquer crime, o “banho” ou batismo era dispensado e o casamento era realizado.

O custo de toda esta burocracia ficava a cargo da noiva e de sua família. E a maioria das famílias pobres não tinha como pagá-los. E tudo ficava por isso mesmo. Algumas, presas aos maridos brutais para sempre e outras, vivendo na miséria por não conseguir reaver o dote do casamento.


Já para os homens, tudo era mais simples. Bastava provar (muitas vezes, forjando provas) a infidelidade da esposa para obter a anulação ou usar o “dote” com bem entendesse.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A MULHER E O CASAMENTO no século XVIII



Tudo parece muito romântico, como nos contos de fada, não concordam? Mas, observando um pouco mais de perto, vemos que as coisas não eram tão românticas assim. 

Relembremos alguns fatos: a princípio, na Idade Média, os casamentos eram realizados pelos os chefes de governo das aldeias (o ancião mais velho, um príncipe ou rei). Com o advento da Igreja, ela passou a cuidar disso. Aprovava ou desaprovava o casamento, segundo os interesses dos amigos ou aliados, justificando ser ou não benéfico para a localidade. Os padres davam a bênção aos noivos numa cerimônia ou ritual. Por longo tempo, os casamentos eram realizados apenas pela Igreja Católica. 


Os casais que passavam a viverem juntos, os concubinatos, os casamentos de pessoas do mesmo sexo e os chamados “casamentos civis” realizados pelos chefes da aldeia, não eram reconhecidos como “casados”. Para a Igreja não tinham nenhum valor e considerava como “pecado grave”.



Com a reforma de 1517, apregoada por Martinho Lutero que estava descontente com 95 dogmas propostos pela Igreja Católica como “verdades divinas”, surge uma nova Igreja: a Protestante. Lutero e seus adeptos valorizavam e indicavam os casamentos civis. Mas, não havia nenhum documento escrito ou registro em cartório. O que valia era a palavra do celebrante. 

O resultado foi um confronto entre as duas Igrejas. Para resolver esse impasse, o Papa Paulo III convocou o clero das duas igrejas para participarem do Concílio de Trento, na Itália, realizado entre os anos de 1545 e 1563, afim de estabelecerem critérios comuns para as duas igrejas. Nesse Concílio, após muitas discussões, chegam a algumas conclusões. Entre elas, a dos casamentos, que passou a ser um dos sacramentos.


Nesse Concílio, que durou anos e discussões intermináveis, os casamentos civis passaram a ser reconhecidos, registrados por escrito. A cerimônia religiosa se tornou obrigatória, sob a máxima de que “o que Deus une, o homem não separa”. Somente os casamentos de pessoas do mesmo sexo não foi reconhecido por nenhuma das Igrejas. Casamentos deste tipo passou a ser legislado pelos monarcas de cada localidade. Podiam aceitar ou rejeitar, segundo seus princípios religiosos e os do próprio reino.

Apesar do Concílio de Trento ter posto um ponto final nas discordâncias entre as Igrejas, faltava um compromisso jurídico que regulasse os casamentos. E isto só aconteceu no início da Idade Moderna, após a Revolução Francesa.

A França, inspirada em seus ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade foi o primeiro país a estabelecer um Código Civil, determinando os direitos e deveres de “todos” os seus cidadãos. E este ato foi seguido por outros países. 


O mundo do século XVIII acreditava que as coisas iriam ser diferentes com as mudanças após a Revolução Francesa, principalmente, com relação aos casamentos. Mas, como as sociedades continuavam patriarcais e as mulheres continuavam em desvantagem. Como antigamente, permaneciam dependentes dos pais e seus maridos, que continuavam sendo escolhidos pelos pais, através das negociações entre as famílias envolvidas.

Muitos noivos que eram gentis, carinhosos e preocupados na ocasião da corte e do noivado, depois do casamento mostravam suas garras. Alguns eram mandões, autoritários e cheios de vontades. Outros eram brutos, ignorantes, jogadores, inveterados beberrões, espancadores, esbanjadores infiéis e estupradores ou tudo isso junto. E as mulheres tinham que sofrer caladas, porque segundo a Igreja, o casamento era indissolúvel.

No início da nossa era, a Igreja Católica via o casamento como um “sacrifício”, principalmente para as mulheres. Mas acreditava que a “convivência conjugal” estava baseada nos indivíduos e não nas pessoas. 

Indivíduos e pessoas parecem ser a mesma coisa, mas não são. O indivíduo é um ser amorfo, impessoal, contável como aqueles das estatísticas. Ninguém se preocupa com seus sentimentos, paixões, desejos e necessidades que precisam e lutam para consegui-los. As pessoas, ao contrário, são aquelas que agem, pensam e sentem de acordo com as relações, porque seus desejos, paixões, sentimentos e necessidades se misturam para que possam ser elas mesmas. Portanto, vistas como indivíduos, as mulheres tinham uma única brecha legal e religiosa para se livrarem de um mau casamento: a anulação do compromisso assumido. 


E para isso acontecer, tinham que obedecer a certas regras nada fáceis de seguir: 

1) a esposa (nem sua família) não podia pedir a anulação desse compromisso; 

2) cabia às esposas provar as queixas feitas aos maridos; 

3) conseguir testemunhas oculares (o que era muito difícil, já que tudo acontecia entre quatro paredes e na privacidade do casal). Daí o provérbio popular: “em brigas de marido e mulher, ninguém mete a colher”.

Vamos imaginar que, ao chegarem cheias de hematomas diante do clero regional. Primeiro, elas eram olhadas com desconfiança. Segundo, faziam a ela milhões de perguntas para verem se, em algum momento, caíam em contradição. Posteriormente, os maridos eram chamados para a confirmação ou negação os fatos. Muitas vezes, mesmo diante das esposas reclamantes, muitos mentiam descaradamente, dando aos hematomas uma desculpa qualquer, somente para se esquivarem de uma punição. E como a palavra do homem valia mais que a das mulheres, obviamente, os maridos saiam ilesos de qualquer acusação e o casamento continuava mantido.


Por tudo isso, a grande maioria das mulheres desistia e se resignava com o sofrimento. E as que conseguiam a anulação, eram mau vistas pela sociedade local. 

Já para os homens, tudo era mais simples. Bastava provar a infidelidade da esposa (mesmo que forjando provas ou corrompendo testemunhas), para obterem a anulação ou usarem o “dote” como bem entendessem.